Sinusite ou enxaqueca? Quando a dor no rosto e a congestão nasal podem enganar você
Postado em: 21/07/2026
Dor na testa, pressão ao redor dos olhos, nariz entupido e até coriza. Para muitas pessoas, esses sintomas significam apenas uma coisa: sinusite.
No entanto, essa associação nem sempre é verdadeira. Na prática clínica, é muito comum atender pacientes que passaram anos tratando episódios recorrentes de “sinusite” quando, na realidade, sofriam de enxaqueca.
E isso não é apenas uma impressão dos especialistas: a ciência confirma.
Mais de 80% dos casos de “cefaleia por sinusite” eram, na verdade, enxaqueca
Um dos maiores estudos sobre o tema avaliou quase 3.000 pacientes que acreditavam ter cefaleia causada por sinusite (ou haviam recebido esse diagnóstico por um médico).
O resultado foi surpreendente: 88% dos participantes preenchiam critérios diagnósticos para migrânea, mesmo apresentando sintomas típicos de sinusite, como congestão nasal e pressão facial.
Esse dado reforça uma mensagem importante: dor na face associada a nariz entupido nem sempre significa uma doença dos seios da face.
Afinal, por que a enxaqueca pode causar nariz entupido?
A enxaqueca é uma doença neurológica complexa. Durante uma crise, ocorre a ativação do sistema trigeminovascular, responsável pela transmissão da dor.
Essa ativação pode estimular o núcleo salivatório superior, localizado no tronco encefálico. Como consequência, ocorre ativação do sistema parassimpático craniano, produzindo os chamados sintomas autonômicos cranianos, entre eles:
- Congestão nasal;
- Rinorreia (coriza);
- Lacrimejamento;
- Vermelhidão ocular;
- Sensação de ouvido tampado;
- Edema discreto ao redor dos olhos.
Esses sintomas podem fazem parte da própria crise de enxaqueca e não significam, necessariamente, que exista uma infecção ou inflamação dos seios da face.
Como diferenciar sinusite de enxaqueca?
Embora possam compartilhar alguns sintomas, existem características que ajudam no diagnóstico.
A sinusite aguda costuma apresentar:
- Febre;
- Secreção nasal espessa e purulenta;
- Congestão nasal persistente;
- Dor facial contínua;
- Início após uma infecção viral das vias aéreas superiores;
- Sintomas que permanecem por vários dias.
Já a enxaqueca geralmente apresenta:
- Crises recorrentes;
- Dor pulsátil ou em pressão;
- Intensidade moderada a forte;
- Náuseas e/ou vômitos;
- Sensibilidade à luz e ao som;
- Piora com atividade física;
- Melhora entre as crises.
Além disso, muitos pacientes relatam episódios repetidos de “sinusite” que melhoram pouco com antibióticos, mas respondem bem a tratamentos que aliviam a enxaqueca.
Mas é preciso reforçar que existem outras dores de cabeça
Outro diagnóstico extremamente importante são as cefaleias trigêmino-autonômicas
Essas cefaleias também provocam sintomas autonômicos cranianos porque compartilham mecanismos envolvendo o reflexo trigêmino-parassimpático.
A cefaleia em salvas merece atenção especial
Entre as cefaleias trigêmino-autonômicas, a cefaleia em salvas é um dos principais diagnósticos diferenciais da enxaqueca.
Ela provoca crises extremamente intensas. As crises costumam apresentar características bastante típicas, de forte intensidade e associadas a sintomas autonômicos, conforme relatado acima, e com inquietação associada.
O tratamento da cefaleia em salvas é completamente diferente do tratamento da enxaqueca. Medicamentos preventivos, terapias para as crises e até mesmo a resposta ao oxigênio são bastante distintos.
Por isso, reconhecer corretamente esse diagnóstico faz toda a diferença.
O diagnóstico correto evita tratamentos desnecessários
Pacientes com enxaqueca frequentemente recebem múltiplos ciclos de antibióticos, corticosteroides ou outros tratamentos para sinusite sem apresentar melhora significativa.
Da mesma forma, pacientes com cefaleia em salvas podem permanecer meses sofrendo crises incapacitantes sem receber o tratamento adequado simplesmente porque seus sintomas foram interpretados como sinusite ou enxaqueca.
Identificar corretamente o tipo de cefaleia permite indicar o tratamento mais eficaz e evitar exames, medicamentos e procedimentos desnecessários.
Quando procurar um neurologista especializado em cefaleias?
Procure avaliação especializada se você apresenta:
- Episódios recorrentes de “sinusite”;
- Dor de cabeça associada à congestão nasal ou coriza sem sinais claros de infecção;
- Dor acompanhada de náuseas, sensibilidade à luz ou ao som;
- Dor extremamente intensa ao redor de um dos olhos;
- Crises repetitivas que sempre acontecem do mesmo lado;
- Falta de resposta aos tratamentos habituais para sinusite.
Muitas doenças podem causar dor na face e sintomas nasais. Diferenciar essas condições exige uma avaliação clínica detalhada, pois o tratamento varia completamente de acordo com o diagnóstico.
Na neurologia, reconhecer essas diferenças é o primeiro passo para aliviar a dor e devolver qualidade de vida ao paciente.
Dra. Tamara Pereira
Neurologista | Especialista em Dor e Cefaleias
CRM-SP 183.780 | RQE 91.010
